“OS TIPOS DE VOTOS” CÉSAR RAMOS

Cesar RamosNa política costuma-se dividir os votos em duas categorias principais: O voto de Opinião e o Voto de Estrutura. O primeiro corresponde ao tipo de voto no qual o eleitor identifica-se com o arquétipo ideológico do candidato, por aquilo que o candidato representa em valores e ideais ou, em última análise, por àquilo que o candidato é. Já o voto de estrutura diz respeito àquilo que o candidato tem ou faz do ponto de vista material. É aquele empresário bem sucedido do bairro que financia shows, calça ruas com recursos próprios, constrói escadarias, faz festa do dia das crianças. A força desde último vem do dinheiro que ele possui e muito pouco do conteúdo que ele tem. Na campanha eleitoral esta diferença fica evidente. O candidato de opinião discute ideias, tem propostas para o conjunto da cidade, enquanto o “candidato de estrutura financeira” promete empregos aos amigos e benefícios individuai, tem visão restrita a um bairro e enche a cidade com a aquela música de campanha que só faz repetir o número e o nome dele em um ritmo embalado.

O nível de desenvolvimento de uma sociedade pode ser medido pela correlação desses dois tipos de votos. Quando mais carente e desinformada for uma sociedade mais elegerá candidato assistencialistas. É o encontro perfeito da demanda com a oferta. O que o povo não percebe é que o dinheiro para financiar essas “bondades” provém, quase sempre da corrupção. As vantagens individuais de hoje implicará na precariedade dos serviços públicos amanhã e na piora na qualidade de vida do conjunto da sociedade. Por outro lado, quanto mais o eleitor valorizar o conteúdo do candidato, os seus valores e suas propostas, maior será a chance de eleger políticos com o compromisso de resolver os problemas coletivos de forma coletiva, de ter alguém que seja livre e independente para fazer oposição e fiscalizar o governo.

Partindo da premissa demográfica de que Jaboatão dos Guararapes, com quase 700 mil habitantes, possui neste contingente uma fatia do eleitorado que se enquadra no perfil do “voto de opinião”, resta então a pergunta: por que, em meio a tanta gente, não se consegue eleger um vereador que aglutine em torno de si esta parcela progressista da população? De pronto, há ao menos três possibilidades: ou esta fatia do eleitorado (voto de opinião) é muito pequena por isso não consegue eleger ninguém ou há vários candidatos com perfil de opinião que acabam por pulverizar este voto ou ainda há fato de não ter-se constituído aqui uma figura pública capaz de cristalizar os sentimentos da vanguarda política do município. Como quase tudo que é complexo na vida, tem quase sempre mais de um motivo para ser, é provável que a explicação para esta questão seja uma resultante da combinação destas três variáveis apresentadas.

O ovo ou a galinha? Quem virá primeiro? Primeiro elegeremos aqui um vereador progressista e este, uma vez eleito, aglutinará as parcelas mais esclarecidas das classes populares e médias, ou será a organização destes setores da sociedade que acabará por constituir um mandato progressista? Com um tecido social fragmentado e enfraquecido, a atividade política honesta e republicana é extremamente inóspita em Jaboatão. Sem o mínimo de cobertura midiática, poucas universidades e organizações sociais, Jaboatão foi, no dizer do sertanejo, “aquela planta que cresceu assombrada pela proximidade de outra maior.” À sombra do Recife, Jaboatão é um gigante adormecido. Aqui, matéria de política, tudo ainda está por ser feito e as páginas mais belas da nossa história ainda estão por ser escritas.

César Ramos é dirigente do PSOL e candidato a vereador do Jaboatão

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